Tuesday, June 24, 2008

eu se pudesse enfiava-me dentro de um padrão com flores. estar de manga curta é bom e assim sozinha apetece mais estar viva só nas horas tardias, a pôr em prática coisinhas pequeninas com suavidade e o tempo estendido. os padrões com flores parecem esse tempo a estender-se. hoje nadar soube tão bem. até fechei os olhos por momentos para sentir só sentir o meu corpo todo a deslizar com a água a suportar tudo tudo tudo. é tão fixe ver os cabelos à solta debaixo da água.

mando-me toda para dentro da água, para o meio das flores de pano e entro neste texto perfeito da clarice:

Avançando, ela sobre o mar pelo meio. Já não precisa da coragem, agora já é antiga no ritual. Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem. Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol quase imediatamente já estão endurecendo de sal. Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons.

E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora está toda igual a si mesma. A garganta alimentada se constringe com o sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais. Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo. O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, ela mergulha de novo: está cada vez menos sôfrega e menos aguda. Agora sabe o que quer. Quer ficar de pé parada no mar. Assim fica pois. Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate. A mulher não recebe transmissões. Não precisa de comunicação.

Depois caminha dentro da água de volta à praia. Não está caminhando sobre as águas- ah, nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas- mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas. Às vezes o mar lhe impõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.

E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água , e sal e sol. Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso. E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos escorridos são de náufrago. Porque sabe - sabe que fez um perigo. Um perigo tão antigo quanto o ser humano.

Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina: José Olympio, 1975

2 comentários:

martalx June 25, 2008 at 3:10 AM  

"mando-me toda para dentro da água, para o meio das flores de pano e entro neste texto perfeito da clarice"
é por estas e por outras que eu te adoro. à brava.

Flip June 25, 2008 at 12:39 PM  

Xi Fili, continuo sempre a ver-te tão grande! Que bom.

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