Wednesday, May 7, 2008

o problema dos quadros do hopper é que quem os vê desenha facilmente um cenário a partir deles, continuando à solta as linhas e as cores cortadas pelo limite da imagem. e aquilo que ele pinta é muito a pessoa perdida ou isolada num espaço muito real - a solidão, portanto. um sentimento muito na moda, muito deste tempo, que afecta qualquer um que perca 30 segundos a olhar para lá. há uma tranquilidade muito sedutora (para mim) mas amarga. os contornos estão bem definidos - as coisas são o que são e são assim. sem dramas - tudo seco e muito directo. é também muito cinematográfico e não apenas por ser "realista". é que estamos de fora, estamos a ver de fora, ele pinta de fora e nós estamos a ver o que ele retratou. estamos a espreitar, é o gaze. isso ainda é mais sedutor, grande cusca e viciada em histórias que sou. olhar sem ser olhado é louco. há esse lado de fora para logo depois ser meio destruído por aquilo que a imagem olhada e retratada invoca em quem olha. diluído, não é? o hopper está de fora mas sabe olhar e depois, quando pinta, leva-nos para esse equilíbrio meio perverso que é o dele. não sei se será justo para quem é retratado. logo a seguir penso que quem está a ser retratado sou eu, tu também. e aí há a redenção.
grande hopper.

(este tempo não dá com nada.)

4 comentários:

Maria João May 7, 2008 at 9:46 AM  

ganda miúda, a filipita!

patrícia May 7, 2008 at 11:02 AM  

"tu também"? tás a falar pra mim? sou eu? ali pélada? como no aires? :D

Lúcio Ferro May 7, 2008 at 6:46 PM  

Também deves gostar de um tipo que se chama Bonnard. Acho que já morreu, mas não sei. Também tenho preguiça de ir à Wikipedia ver. Ele pintava coisas muito boas, de intimidades e solidões violadas (estou a lembrar-me de uns quadros dos anos cinquenta, que tinham sempre como cenário a casa-de-banho. E era horrível, claro. Com a vantagem do traço ser muito mais incerto, mais expressionista, para quem gosta do nome.) Procura, aconselho.

martalx May 8, 2008 at 3:19 AM  

er... pat... desculpa, mas eu acho que ela estava era a falar comigo. aquele tu também é, claramente, uma alusão à irmã martinha. mas não te preocupes, está tudo bem, estes equívocos acontecem.

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